O dogma da Transformação
- Jaqueline M. Souza
- 26 de out. de 2016
- 5 min de leitura

Todo protagonista precisa mudar? Vic Mackey, um dos protagonistas da sƩrie policial The Shield.
Toda regra narrativa Ć© reducionista (a afirmação que comeƧa este post tambĆ©m). Ć uma tentativa de simplificar a complexidade. Para cada afirmação de āTodo Protagonista deve ter um Objetivoā, encontramos uma Laranja MecĆ¢nica e acreditamos se tratar de uma anomalia. Mas o fato Ć© que a regra, em primeiro lugar, nĆ£o Ć© a verdade, Ć© mera redução de um conjunto de variĆ”veis nem boas, nem mĆ”s. Ć a repetição dessa simplificação que lhe dĆ” carĆ”ter dogmĆ”tico, fazendo com que muitos nĆ£o ultrapassem os limites que a cercam. O campo fora das regras nĆ£o Ć© exatamente proibido, mas Ć© pantanoso. Poucos arriscam se embrenhar, pois o mundo ao redor estĆ” gritando: āNĆ£o vĆ”, nĆ£o Ć© possĆvel fazer um bom roteiro sem conflito...conflito...flito...itoā. E daĆ, por medo, nĆ£o vamos. Ou vamos, mas na primeira dificuldade voltamos crentes de ser realmente impossĆvel. āSó os gĆŖnios conseguemā- afirmamos tentando convencer a nós mesmos. Nos confortamos com uma resposta fĆ”cil e deixamos de lado os estudos que poderiam aprofundar nosso conhecimento e nos levar ao outro lado. Ć no conhecimento e só entĆ£o na tĆ©cnica que encontramos todas as mĆŗltiplas possibilidades que confrontam os dogmas e vĆ£o alĆ©m do lugar comum. Um desses dogmas que todo mundo encontra em seus primeiros estudos de roteiro Ć© que todo protagonista precisa mudar ou passar por uma transformação ao longo da história.

Uma das muitas variações que encontramos sobre a obrigatoriedade de mudança do protagonista: " um personagem começa como um cara, então coisas acontecem, ele faz uma merd@s muito loucas, que então mudam quem ele é, e assim ele se torna um cara diferente.Fim"
Blake Snyder no livro Save the Cat chega a afirmar que āArc is a term that means āthe change that occurs to any character from the beginning, through the middle, and to the end of each characterās journey.ā/ Arco Ć© um termo que significa- a mudanƧa que ocorre com qualquer personagem desde o inĆcio, pelo meio e atĆ© o fim de sua jornada."
NĆ£o digo que a afirmação Ć© errĆ“nea, mas sim que ela nĆ£o Ć© conclusiva. A Jornada do Herói influenciou muitos escritores que transformaram em regras, questƵes que lĆ” sĆ£o apresentadas dentro de um contexto especĆfico. O Herói clĆ”ssico muda, pois seu arquĆ©tipo Ć© o do jovem em transformação. A Jornada do Herói se origina em rituais de passagem, por isso a obrigação da transformação, ela Ć© ritualĆstica. Mas se nem todo protagonista Ć© um herói arquetĆpico, todo protagonista precisa mudar?
O famoso aforismo do filósofo grego HerĆ”clito: āPanta Rheiā, algo como tudo muda ou tudo flui, sugere que nĆ£o. Segundo PlatĆ£o, para HerĆ”clito ninguĆ©m poderia se banhar em um mesmo rio duas vezes. Um homem só pode pisar em um rio uma vez, jĆ” que o fluir das Ć”guas muda o rio. Mas tampouco a pessoa permanece a mesma. A mudanƧa seria o fluxo natural e por natural entenda literalmente como regido pelas leis da natureza. O tempo passa, a Ć”gua corre, as pessoas mudam. Tudo flui.
Porém, se a passagem do tempo não altera as coisas, isso jÔ seria uma transformação. Afinal, se tudo muda, não mudar seria ir contra a ordem natural, o que de certa forma também é uma mudança, não do personagem, mas do fluxo natural ao qual estamos acostumados.
Ć o caso de Vic Mackey, protagonista da sĆ©rie policial The Shield. No piloto, Vic, um policial corrupto, mata um colega de sua equipe após descobrir que ele era um informante da corregedoria. Vic nunca se arrepende, nunca questiona sua escolha e se necessĆ”rio a faria novamente. NĆ£o existe transformação ao longo das sete temporadas de The Shield. Vic nĆ£o muda e Ć© justamente essa a sua āpuniçãoā ao final da sĆ©rie, fazendo com que ele perca absolutamente tudo o que ama. Só que Vic Ć© constantemente testado, confrontado com sua própria hipocrisia, colocado em situaƧƵes que deveriam o mudar, mas nĆ£o mudam. E, isso o torna fascinante. Tivessem os roteiristas caĆdo no caminho comum, onde Vic alcanƧaria a redenção, sua história seria banal e o personagem nĆ£o tĆ£o complexo. Ć uma escolha que nĆ£o pode ser feita sempre, convenhamos, mas que pode ser feita.

Martin Mckfly em de Volta para o Futuro, protagonista sem transformação, mas cheio de aventuras.
Outra exceção que o dogma da transformação nĆ£o abrange Ć© a utilização de arcos exclusivamente fĆsicos com foco Plot Driven. Seja James Bond (com exceção em alguns filmes da franquia), Indiana Jones ou Martin Mckfly. A história desses protagonistas, em geral, estĆ” tĆ£o focada na busca de um objetivo, um objeto de desejo ou na resolução de um conflito, que qualquer jornada interior Ć© deixada de lado e filme após filme, eles terminam exatamente como comeƧaram. De Volta para o Futuro Ć© um exemplo maravilhoso, pois Martin Mcfly vĆŖ seu amigo ser morto, consegue voltar no tempo, conhecer seus pais jovens, ajuda-los a resolver seus problemas, viver durante alguns dias em outra dĆ©cada, quase deixar de existir, voltar para o futuro tendo mudado toda a sua famĆlia, mas ele continua exatamente o mesmo. Na realidade, a Ćŗnica mudanƧa em sua vida ao final do primeiro filme, Ć© que na nova versĆ£o do futuro, ele tem a sua sonhada pick up Toyota.
Podemos dizer que o formato Plot Driven nĆ£o exige uma transformação do protagonista justamente por sua tendĆŖncia ao concreto, ao palpĆ”vel. Por outro lado, as comĆ©dias tambĆ©m nĆ£o exigem que seu protagonista mudem, mas por outra questĆ£o. SĆ£o as imperfeiƧƵes do personagem que permitem que todo o potencial cĆ“mico seja alcanƧado, por isso mesmo passando por uma situação que lhe ensina uma lição sobre a vida, o personagem muda pouco ou nada, pois ele precisa continuar imperfeito. No cinema de comĆ©dia contemporĆ¢neo, quase sempre existe um subplot de jornada interior, mas se pensarmos em casos como Seinfeld, The It Crowd, Simpsons, ou a maior parte da gangue de Itās Always Sunny in Philadelphia, percebemos que a comĆ©dia tambĆ©m nĆ£o tem a transformação como regra, a transformação ou nĆ£o do protagonista Ć© mera questĆ£o estilĆstica do autor. O lema de Larry David āNo hugging, no learningā (sem abraƧos, sem aprendizado) Ć© levado a sĆ©rio em Seinfeld, que termina suas nove temporadas com os personagens tendo o mesmo dialogo que abre a sĆ©rie. Sem transformação, poderĆamos acrescentar.

Annalise oscila entre a força e a fragilidade, mas não hÔ mudança, nós que somos apresentados a suas muitas facetas aos poucos.
Outra forma sutil de trabalhar a questĆ£o, Ć© utilizar a revelação no lugar da transformação. Em obras seriadas, com frequĆŖncia vemos facetas de personagens que ainda nĆ£o conhecĆamos. Isso nĆ£o quer dizer que o personagem mudou, apenas que uma parte de sua personalidade que ainda nĆ£o havia sido testada foi colocada Ć prova e exposta. Ćtimo exemplo disso Ć© a primeira temporada de How to Get away with Murder e como a protagonista Annalise Keating Ć© desenvolvida. Ć o que vamos descobrindo sobre ela que faz com que vejamos o personagem com outros olhos ao longo da história. A estrutura em media res que comeƧa em um ponto e avanƧa e retrocede cronologicamente, ajuda a montar o quebra-cabeƧa que Annalise Ć©. Somos nós que descobrimos que ela Ć© instĆ”vel, tĆ£o auto centrada quanto insegura, que por vezes distorce os próprios valores que afirma ter, desde que seja para se proteger. Annalise Ć© assim. NĆ£o Ć© ela que muda, somos nós.
EntĆ£o nĆ£o, nem todo protagonista precisa mudar. Mas nĆ£o se engane, continuar o mesmo Ć© mais difĆcil do que parece.

