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Escrevendo o som do silĂȘncio

  • Marcos Hinke
  • 20 de set. de 2016
  • 9 min de leitura

Nem sĂł de imagens vive o cinema e nem sĂł de palavras vivem as narrativas. Apesar do desenho de som ser umas das Ășltimas etapas na composição de um filme, indicaçÔes sonoras eficientes podem germinar jĂĄ no roteiro e contribuir muito para o tom e clima das cenas, seduzindo o leitor e instigando inclusive a criação da imagem e do ritmo.

"M - O Vampiro de DĂŒsseldorf". O primeiro filme sonoro de Fritz Lang revolucionou a construção narrativa do som no cinema.

Nas pĂĄginas de um roteiro o som evoca imagens e da mesma maneira que nĂłs roteiristas treinamos habilidades para escrever diĂĄlogos e açÔes, podemos treinar tambĂ©m a imaginação sonora e como utilizĂĄ-la de forma eficiente na escrita. A consciĂȘncia do uso narrativo do som pode trazer frescor a imaginação, concisĂŁo criativa Ă  cenas que poderiam ser prolixas e maçantes, adicionar camadas sensoriais ao texto, e muitas outras funçÔes e tĂ©cnicas narrativas poderosas. Para isso precisamos compreender o som alĂ©m do senso comum e assim instigar o pensamento sonoro para começar a pensar em som alĂ©m dos diĂĄlogos.

NĂŁo Ă© apenas sobre tiros e mĂșsicas

Quando pensamos em som Ă© muito fĂĄcil nos limitarmos a imaginar os tiros e explosĂ”es que dominaram as produçÔes hollywoodianas nas Ășltimas dĂ©cadas ou em faixas musicais que embalam algumas das cenas mais famosas do cinema. E assim, deixamos de lado vĂĄrios outros potenciais dramĂĄticos e narrativos que podem ser proporcionados pelo seu uso eficiente.

Na edição de som de um filme, a equipe trabalha com o uso de som diegĂ©ticos (os sons contidos na cena, como passos, o som do trĂąnsito, tiros, pĂĄssaros, roupas, etc.) e nĂŁo-diegĂ©ticos (sons externos a ação do mundo ficcional, que o pĂșblico ouve e os personagens nĂŁo, como narração, mĂșsica, alguns efeitos sonoros, etc.).

O som pode originar uma ação: um telefone precisa tocar para alguĂ©m atender. Outros podem ser induzidos para propĂłsitos dramĂĄticos, sejam eles diegĂ©ticos ou nĂŁo-diegĂ©ticos, como por exemplo, uma torneira pingando na madrugada atormentando um homem com peso na consciĂȘncia, pessoas brigando violentamente no apartamento ao lado enquanto o vizinho se abstĂ©m, um ventilador de teto que se transforma em um helicĂłptero na mente de um oficial assombrado pela guerra, os passos que ecoam em uma rua escura e vazia, etc.

ConcepçÔes dramåticas do som podem ser desenvolvidas apenas na etapa final da produção pelos editores de som e mixadores, porém, da mesma maneira que um roteiro indica os ambientes físicos das cenas, se vestígios da concepção sonora também forem indicadas, todas as equipes da produção podem se beneficiar e trabalhar por um som em comum: A direção pode optar por planos que chamem a atenção para a origem do som, como por exemplo, um plano detalhe da torneira pingando ou do ventilador que soa como um helicóptero. Também podendo criar ironias e contrastes, como um plano do vizinho fazendo algo completamente trivial enquanto ouve duas pessoas se agredindo no apartamento ao lado. A equipe de direção de arte pode trabalhar em ambientes, vestuårios e objetos que evoquem sons marcantes, como o tipo de sapato que a pessoa que anda sozinha em uma rua deserta e perigosa ou o piso rangente de um galpão onde um prisioneiro em fuga estå escondido. A fotografia pode pensar em contrastes de luz que dialoguem com o que serå apresentado pelo som.

SequĂȘncia inicial de Apocalypse Now: Sons diegĂ©ticos e nĂŁo-diegĂ©ticos em harmonia para efeitos dramĂĄticos, filtrados pela mente do protagonista, CapitĂŁo Benjamin L. Willard.

No artigo “Designing a movie for a sound” (“Desenhando um filme para um som” em tradução livre, publicado em 1999 pela FilmSound.org), o sound Designer Randy Thom (Contato, Forrest Gump, Os IncrĂ­veis, e centenas de outros filmes) faz um apelo para o trabalho colaborativo do som, para que o departamento se livre das limitaçÔes de ser a Ășltima etapa narrativa de uma produção, que usualmente, acaba carregando o fardo de tentar arrumar tudo que nĂŁo deu certo em etapas anteriores. Utilizando exemplos icĂŽnicos como Star Wars e Apocalypse Now, Thom chama a atenção para como seus realizadores perceberam a importĂąncia do som para enriquecer as obras, ultrapassando os limites de diĂĄlogo, mĂșsica e efeitos sonoros diegĂ©ticos:

“[...] Sidney Lumet disse recentemente em uma entrevista que ele ficou impressionado com o que Coppola e Walter Murch conseguiram fazer na mix de Apocalypse Now. Bem, o que há de excelente naquela mixagem começou bem antes de qualquer um chegar na fase de dublagem. Na verdade, começou no roteiro e a inclinação de Coppola em dar aos personagens de “Apocalypse” a oportunidade de ouvir o mundo ao redor deles.”

O som ao redor (não por acaso o título do filme de Kleber Mendonça Filho, conceituado narrativamente através do som) dos personagens pode ser mais rico e intenso do que as imagens, sejam eles harmoniosos ou destoantes, e o roteiro pode elaborar cenas em que o som tenha a possibilidade de florescer, como explorar momentos de introspecção dos personagens ou pensar em cenas que o ambiente ao redor seja incorporado na ação.

Espacialidade e Ponto de Vista

“O que Ă© para o olho nĂŁo deve ser duplicado com o que Ă© para o ouvido“

-Robert Bresson

O som escrito não significa necessariamente apontar os efeitos sonoros que serão criados na pós-produção. Rechear seu roteiro de onomatopeias ou foleys pode ter o efeito contrårio na concisão que se exige na escrita de um roteiro. Lembre-se: roteiro é uma arte econÎmica. O uso de sons escritos são indicados em casos em que sua presença deve ser evidenciada, como a torneira pingando ou os vizinhos brigando, e não todos os tipos de motores diferentes dos carros que passam na rua.

Citando novamente o artigo de Randy Thom:

“Se um roteiro tem muitas referencias sobre sons especĂ­ficos, podemos pular para a conclusĂŁo que Ă© um roteiro amigĂĄvel com o som. Mas isso nĂŁo Ă© necessariamente o caso. O grau em que um som poderĂĄ eventualmente participar do storytelling serĂĄ mais determinado pelo uso do tempo, espaço e ponto de vista na histĂłria do que pela frequĂȘncia de vezes que o roteiro menciona sons. [
] JĂĄ que o que vemos e ouvimos estĂĄ sendo filtrado pela consciĂȘncia dos personagens, o que eles ouvem pode nos dar muitas informaçÔes sobre quem eles sĂŁo e o que eles estĂŁo sentindo. Descobrir como usar o “ponto de vista”, assim como usar o espaço acĂșstico e o elemento de tempo, deve começar com o roteirista. Alguns roteiristas pensam naturalmente nesses termos, a maioria nĂŁo. E quase nunca Ă© ensinado em cursos de roteiro.”

Quando Robert Bresson disse que “O cinema sonoro inventou o silĂȘncio”, ele nĂŁo estava querendo criar um frase de efeito paradoxal, na verdade, Bresson aplicou brilhantemente seu aforismo em suas obras, onde o silĂȘncio nos leva para o Ăąmago dos personagens. “Um condenado a morte Escapou” Ă© um exemplo perfeito de espacialidade e ponto de vista atravĂ©s do som, onde Bresson narra a histĂłria de um solitĂĄrio prisioneiro de guerra cujo Ășnico contato com o mundo externo sĂŁo os sons ao seu redor, moldando o sentimento de solidĂŁo, intimidade, tensĂŁo e claustrofobia de maneira minimalista. O filme todo Ă© trabalhado pelo ponto de vista do tenente Fontaine, vemos apenas o que ele vĂȘ e ouvimos apenas o que ele ouve, como os guardas do lado de fora e suas tentativas de esconder os sons que ele emite em seu plano de fuga. Segundo Bresson “Os olhos nos levam para fora e os ouvidos nos levam para dentro”, e sua firme orquestração sonora realmente nos coloca no papel de Fontaine, sem qualquer diĂĄlogo expositivo.

SequĂȘncia Final de “Um condenado a morte escapou”, o som como aliado e inimigo do protagonista.

Tomemos uma cena de “Onde os fracos nĂŁo tem vez” para exemplificar o ponto de vista e espaço acĂșstico na sua forma escrita. Abaixo, uma tradução livre e editada de um trecho do roteiro original.

O estado de tensĂŁo e a presença de Chigurh (o antagonista, quase o mal personificado) sĂŁo estabelecidos atravĂ©s do som. O toque do telefone na recepção imediatamente jĂĄ nos leva para a presença do perigo, indicando que o recepcionista do hotel, por algum motivo nĂŁo estĂĄ atendendo. A cena toda Ă© pelo ponto de vista de Moss, e o roteiro nos indica a leitura da construção sonora atravĂ©s de elementos apresentados em cenas anteriores, como o recepcionista que afirmou que estaria na recepção a noite inteira e agora nĂŁo atende o telefone, e o arsenal de sons emitidos por Chigurh, como o beep do rastreador e o som “pneumĂĄtico” de sua arma de ar comprimido, estabelecidos em cenas anteriores.

Até o piso de madeira participa na construção da tensão sonora a favor e contra o protagonista. Primeiro, indicando que Chigurh estå no hotel e se aproximando do quarto de Moss, logo após a primeira troca de tiros ao invés de começar a perseguição padrão de filmes de ação, a cena toma um rumo inusitado, onde Moss precisa dar passos curtos para não ser ouvido pelo seu perseguidor.

Esse conceito de espacialidade e ponto de vista atravĂ©s do som foi determinante para que a cena fosse filmada como foi. Sem a construção sonora em mente, provavelmente a opção mais Ăłbvia seria tomada e a cena se alternaria entre o ponto de vista de cada um dos antagonistas, que atĂ© poderia ser original e impactante da sua maneira, mas Ă© inegĂĄvel que essa sequĂȘncia de perseguição e tiroteios se destaca de centenas de outras lançadas todos os anos.

“Não mostre para contar”

Use o som para provocar o leitor. A mĂĄxima “show, donÂŽ't tell” (mostre, nĂŁo conte) Ă© uma tĂ©cnica poderosĂ­ssima para criar dramaticidade, onde a experiĂȘncia dramĂĄtica Ă© estabelecida atravĂ©s de açÔes e subtextos e nĂŁo atravĂ©s de uma descrição meramente expositiva. “Eu te odeio” pode ser uma frase agressiva, mas uma demonstração de Ăłdio Ă© muito mais forte do que a exposição do sentimento. PorĂ©m, “mostrar” nĂŁo significa literalmente apresentar uma imagem, e sim uma ação ou pelo menos a sugestĂŁo de uma ação, e o som conta com esse poder. Apesar do cinema ser uma arte primordialmente visual, nĂŁo podemos esquecer do poder dramĂĄtico e narrativo da negação da imagem. Quando a ação ocorre fora de quadro, um novo nĂ­vel de interação pode ser estabelecido entre o filme e os espectadores, que tem o poder de escolher imaginar a ação ou se abster.

Pense na cena do acidente em “21 Gramas”, sua narrativa nĂŁo-linear anuncia um acidente fatal envolvendo um pai e suas duas filhas pequenas, como espectadores aguardamos com um desconforto ansioso esse momento trĂĄgico, e quando vemos na tela a indicação de que ele estĂĄ prestes a chegar, a tensĂŁo aumenta, o destino desses personagens Ă© inevitĂĄvel e nos preparamos para o pior. PorĂ©m, no clĂ­max da ação, a cena opta por se focar em um jardineiro que acabou de cumprimentar as meninas. Ele estĂĄ usando um soprador de folhas para limpar um jardim, o som de sua mĂĄquina Ă© dominante no ambiente, o acidente acontece fora de quadro e sabemos disso atravĂ©s da reação do jardineiro e uma faixa de som bem sĂștil do impacto do carro e os gritos subsequentes. O jardineiro larga o soprador de folhas e corre para fora de quadro, nos deixando apenas com o som da maquina. AtĂ© mesmo o som da tragĂ©dia Ă© amenizado. A expectativa de um evento muitas vezes Ă© mais forte do que o evento em si, e atravĂ©s dessa escolha somos poupados de presenciar a brutalidade, causando um sentimento ambĂ­guo de alĂ­vio e frustração, evocando ao mesmo tempo nosso sadismo e empatia.

O cineasta austrĂ­aco Michael Haneke Ă© notoriamente reconhecido por suas cenas intensas em que a ação principal ocorre fora de quadro. “ViolĂȘncia Gratuita” Ă© uma desconstrução do gĂȘnero de terror slasher, que propĂ”e uma discussĂŁo sobre nossa relação com a violĂȘncia na ficção. Apesar do tĂ­tulo, a violĂȘncia nĂŁo Ă© grĂĄfica, ela estĂĄ lĂĄ, mas sĂł a vemos na esfera psicolĂłgica, a violĂȘncia fĂ­sica Ă© apresentada apenas pelo som.

Enjoy the silence

Para finalizar, dois belos vĂ­deos ensaio: “When words fail in movies” (Quando as palavras falham nos filmes) da Fandor, pode apresentar inspiraçÔes para aqueles que buscam desenvolver cenas privando os ouvidos dos espectadores de exposiçÔes. O vĂ­deo reĂșne uma seleção de cenas onde os diĂĄlogos sĂŁo obstruĂ­dos por motivos diversos e mostra o poder de comunicação da inaudibilidade:

Martin Scorsese - The Art of Silence (A arte do silĂȘncio) do canal Every Frame a Painting revisa a carreira do mestre Martin Scorsese atravĂ©s do uso dramĂĄtico do silĂȘncio em seus filmes, muito conhecidos pelo uso de edição acelerada e mĂșsicas que embalam quase todas as cenas. O vĂ­deo contĂ©m legendas em portuguĂȘs que podem ser ativadas nas configuraçÔes:

Obviamente que a equipe de som Ă© a responsĂĄvel e a autoridade mĂĄxima do desenho de som e mixagem, por isso, nĂŁo sugerimos som no roteiro como a polĂȘmica questĂŁo de apontar posicionamentos de cĂąmera nas descriçÔes de cenas. Da mesma forma que um roteiro sugere imagens para propĂłsitos dramĂĄticos e a direção escolhe como isso serĂĄ retratado na tela, podemos adicionar o som para uma maior experiĂȘncia sensorial na leitura. JĂĄ que a roteirista Ă© a primeira pessoa a sonhar com o filme, sonhe com sons, eles podem ser dramaticamente poderosos.

 
 
 
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