Como escrever personagens mais inteligentes que vocĂȘ
- Tradução: Jaqueline M. Souza
- 6 de mai. de 2015
- 9 min de leitura
Tradução do artigo de Graham Moore, ganhador do Oscar em 2015 em Melhor Roteiro Adaptado por O Jogo da Imitação, publicado atravĂ©s do Medium. VocĂȘ pode ler o texto no idioma original, aqui. Abaixo a tradução.
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Meu momento menos favorito de todo cinema Ă© relativamente comum. VocĂȘ vai reconhecĂȘ-lo, eu tenho certeza, a partir de dezenas de filmes e programas de TV que sĂŁo protagonizados por cientistas. VocĂȘ pode atĂ© ter rido uma ou duas vezes. Ele geralmente gera uma rĂĄpida gargalhada . O momento Ă© algo como isto:
O nosso personagem Ă© um cientista de algum tipo. Ele Ă© um matemĂĄtico, se vocĂȘ estĂĄ assistindo a um drama. Ele Ă© um fĂsico, geralmente, se vocĂȘ estĂĄ assistindo a um filme sci-fi. Ele Ă© um biĂłlogo em um filme de zumbi ou um codificador em um techno-thriller (e ele Ă© quase sempre um homem, o que por si sĂł, Ă© um aborrecimento). Nosso personagem cientista oferece um breve parĂĄgrafo do diĂĄlogo tĂ©cnico, relativamente razoĂĄvel. Ele explica algum ponto da trama para os outros personagens na cena, que serve para explicar isso para o pĂșblico tambĂ©m. Ele joga em poucas palavras, obscuros jargĂ”es cientĂficos - y para verossimilhança, mas o ponto bĂĄsico Ă© que ele mantĂ©m claro e compreensĂvel. Algo na linha de: "NĂłs vamos precisar modificar os propulsores de dobra para passar por um buraco de minhoca desse tamanho", ou, "Os terroristas estĂŁo usando uma chave inquebrĂĄvel de 512 bits para criptografar a localização do plutĂŽnio", ou ainda, "Ao viajar para o passado, vocĂȘ criou uma linha do tempo no universo alternativo em que vocĂȘ nunca nasceu." Algo nesse sentido. Ele descreve um conceito cientĂfico que Ă© facilmente explicĂĄvel e que literalmente acabou de ser explicado.
Mas, em seguida, apĂłs o nosso cientista terminar, a cĂąmera se volta para um segundo personagem. Ele seria um amigo ânormalâ de nosso cientista. Ele Ă© apenas um JoĂŁo comum. Ele representa o pĂșblico durante a cena e Ă© o personagem com quem o pĂșblico mais se identifica. Esse cara faz uma cara de incredulidade em resposta Ă linguagem tĂ©cnica do cientista. E entĂŁo ele diz a seguinte linha:
"Whoa, Doc. Agora, diga isso de novo em InglĂȘs! "
VocĂȘ sabe exatamente do que eu estou falando. VocĂȘ jĂĄ viu esse momento na tela, vocĂȘ jĂĄ viu isso na TV, vocĂȘ jĂĄ leu isso em novelas. Acho que este momento Ă© extremamente condescendente com seu pĂșblico. No momento em que sinaliza essencialmente para o espectador que toda essa baboseira que o espertĂŁo sabe, bem, nĂłs cineastas nĂŁo entendemos uma palavra dele. AlĂ©m disso, nĂłs nĂŁo nos importamos. E nĂłs nĂŁo temos nenhum interesse em seu entender.
Ă um momento de casual anti-intelectualismo cĂnico. Ă uma piada baseada na idĂ©ia de que apenas alguns geeks que nĂŁo fazem sexo se preocupariam com o que alguns cientistas tontos dizem. No momento em que trata, nem seus personagens, nem a sua audiĂȘncia com respeito.
Gostaria de sugerir que a razĂŁo para momentos como estes continuem surgindo em telas pequenas e grandes Ă© simplesmente que a escrita sobre um personagem excepcionalmente brilhante Ă© terrivelmente difĂcil. HĂĄ uma tendĂȘncia para diminuir a luminosidade de um personagem, em momentos como o que eu descrevi, em vez de enfrentar a cabeça genial a nossa frente. Porque a Ășltima abordagem Ă© infernalmente difĂcil.
Como escritor, como vocĂȘ escreve sobre personagens que sĂŁo mais espertos do que vocĂȘ Ă©? Como vocĂȘ transmite, em qualquer prosa ou diĂĄlogo, a mente de um gĂȘnio quando vocĂȘ mesmo nĂŁo Ă© um? Como vocĂȘ respeita adequadamente tanto a inteligĂȘncia do pĂșblico, quanto a inteligĂȘncia perto do super-humano de um personagem gĂȘnio?

Passei muitas noites altamente cafeinadas as voltas com essas questĂ”es quando comecei a escrever o roteiro de O jogo da imitação. Alan Turing, cuja histĂłria de vida Ă© explorada no filme, foi talvez o maior gĂȘnio da sua geração. E eu nĂŁo sou, para dizer o mĂnimo. Turing nĂŁo era apenas instrumental em quebrar o cĂłdigo do Enigma AlemĂŁo durante a Segunda Guerra Mundial, mas ele tambĂ©m teorizou o que se tornaria o computador moderno. Turing nĂŁo era apenas um bem sucedido botĂąnico que fazia o seu prĂłprio adubo, mas como em um experimento ocioso, ele desenvolveu um algoritmo para determinar como as zebras tem suas listras. Ele tinha uma mente tĂŁo constantemente zumbindo com idĂ©ias, incessantemente produzindo atravĂ©s da informação do mundo e processando-as em teorias, conjecturas e experimentos. Ele nĂŁo conseguia parar de pensar, mesmo que ele quisesse, o que, felizmente para nĂłs, ele nĂŁo o fez. Para transmitir uma mente como a dele na pĂĄgina e na tela era tanto um terrĂvel desafio quanto uma responsabilidade sagrada.
Uma abordagem seria tornar seu diĂĄlogo um jargĂŁo altamente tĂ©cnico. TĂȘ-lo falando em algoritmos densos e impenetrĂĄveis. O problema com isso seria que acabaria incompreensĂvel para o pĂșblico. O espectador nĂŁo iria encontrar-se dentro da mente de Alan Turing; pelo contrĂĄrio, ela iria encontrar-se propositadamente excluĂdo. Ele nĂŁo vai aprender nada sobre os pensamentos de Turing, nem experimentar esses pensamentos como seu prĂłprio. Pode dar a impressĂŁo estĂ©tica de inteligĂȘncia - o que inteligĂȘncia matemĂĄtica parece ser- mas nĂŁo iria permitir que o espectador adentrasse as idĂ©ias originais e mundialmente histĂłricas de Turing. A recitação seca de conceitos matemĂĄticos nĂŁo iria, ao que parece, fazer justiça ao legado artĂstico de Turing.
Muito proveitosamente, porĂ©m, eu estava longe de ser a primeira pessoa a tentar resolver esta questĂŁo. E o que eu percebi foi que se vocĂȘ quer escrever sobre um gĂȘnio, o melhor lugar para procurar inspiração Ă© no trabalho de alguĂ©m que criou o gĂȘnio ficcional mais definitivo de todos os tempos. AlguĂ©m que, em 56 contos e quatro romances, conjurou um gĂȘnio tĂŁo Ășnico que tem sido revivido em livros e filmes e programas de televisĂŁo e peças de teatro, hĂĄ mais de cem anos. Ou seja: eu encontrei inspiração na obra de Sir Arthur Conan Doyle.
Agora, quatro anos atrĂĄs, eu publiquei um romance sobre Conan Doyle. Era chamado The Sherlockian e foi realmente o pedaço de escrita que eu dei aos produtores de O Jogo da Imitação para convencĂȘ-los a me deixar vir e resolver a histĂłria de Turing (o fato de que eu estava disposto e ansioso para trabalhar de graça foi, provavelmente, tambĂ©m um Ăștil ponto de venda). Mas ocorreu-me que o detetive ficcional de Conan Doyle nĂŁo era nada como Alan Turing - os dois homens tinham personalidades completamente diferentes e formas de olhar o mundo - Conan Doyle, no entanto, tinha feito um trabalho superlativo de retratar o brilhantismo de Holmes. EntĂŁo, como Ă© que ele fez isso?
Agora, a primeira coisa a notar sobre a relação entre Conan Doyle e Holmes Ă© que ela nĂŁo era amistosa. Conan Doyle detestava Holmes. Ele se arrependeu de ter criado o personagem quase que instantaneamente apĂłs fazĂȘ-lo. Quando a primeira histĂłria de Holmes foi publicada, Conan Doyle ficou chocado com a popularidade repentina e maciça de sua criação. A ficção "mais sĂ©ria" de Conan Doyle foi ignorada enquanto o pĂșblico exigia mais do que ele achava ser mistĂ©rios baratos e manipuladores. Mas o pĂșblico manteve-se devorando as histĂłrias e Conan Doyle se viu incapaz de resistir aos cheques considerĂĄveis que chegavam. Ele continuou escrevendo, o pĂșblico continuou comprando e todo o tempo Conan Doyle ficou pasmo. A popularidade de Holmes mostra a Conan Doyle a sua prĂłpria. NĂŁo era o seu nome na boca de todos; era o de Holmes. Em um ponto, a prĂłpria mĂŁe de Conan Doyle enviou-lhe uma carta, perguntando se ele iria assinar uma cĂłpia de um dos livros para uma amiga dela. Conan Doyle escreveu que ele ficaria feliz em fazĂȘ-lo. Sua mĂŁe respondeu alegremente, perguntando se ele nĂŁo se importaria de assinĂĄ-lo: "- Sherlock Holmes"
Mesmo sua mĂŁe parecia apreciar mais Holmes do que apreciĂĄ-lo.

O que sĂł engrandeceu a antipatia de Conan Doyle para o pĂșblico de caipiras ingĂȘnuos que estavam comprando estes contos. Eles nĂŁo sabiam que era apenas um truque? Holmes nĂŁo era um verdadeiro gĂȘnio - ele foi inventado!
EntĂŁo Conan Doyle escreveu um pequeno conto em que ele tentou deixar claro o "truque" das histĂłrias de Holmes. Ele compĂŽs uma parĂłdia de sua prĂłpria obra, como se para mostrar que, pelo menos, ele estava na piada de Holmes, mesmo que ninguĂ©m mais estivesse. A histĂłria Ă© chamada "Como Watson aprendeu o truque", e nĂŁo Ă© geralmente publicada como parte do cĂąnone Holmes. Alguns estudiosos acham a histĂłria uma gozação gentil e afetuosa do personagem de Holmes, mas para a minha mente parece uma parĂłdia a plenos pulmĂ”es das tĂ©cnicas literĂĄrias usadas para criĂĄ-lo. LĂȘ-se como se fosse feita sob medida para irritar os fĂŁs. A Ășnica coisa que posso comparĂĄ-lo Ă© com o fim de Os Sopranos, talvez, na maneira que a meta-narrativa castiga a audiĂȘncia por apreciar o trabalho que eles estĂŁo desfrutando.
A histĂłria começa com Watson e Holmes sentados tomando seu cafĂ© da manhĂŁ habitual. Watson dĂĄ a Holmes um olhar curioso. "Eu estava pensando o quĂŁo superficial sĂŁo esses seus truques ", diz Watson ", e quĂŁo maravilhoso Ă© que o pĂșblico continue a mostrar interesse por eles."
Holmes concorda com a avaliação de Watson. "Seus métodos", diz Watson, "são realmente facilmente adquiridos."
"Sem dĂșvida!", Responde Holmes, e, em seguida, ele ousa que Watson faça uma tentativa.
Watson morde a isca. Ele olha Holmes de cima a baixo e faz uma série de deduçÔes Holmesianas sobre o que o bom Sherlock tem passado. Ele pode dizer que Holmes estava muito preocupado quando acordou; que ele não foi bem sucedido em um caso recente; e que ele havia recentemente se envolvido no mercado financeiro. Watson determina tudo isso a partir do estado de barbear de Holmes, um envelope vislumbrado sobre a mesa de café da manhã, e da condição do jornal da manhã, respectivamente. à um momento Holmesiano perfeitamente proferido: Watson olha por cima um monte de pequenos detalhes, que o leitor, naturalmente ignora e a partir destes pedaços independentes de informação faz uma série de deduçÔes brilhantes.
SĂł que nesta histĂłria, hĂĄ uma reviravolta: Watson estĂĄ completamente errado sobre cada uma de suas inferĂȘncias. EntĂŁo, para vergonha tanto de Watson quanto do leitor, Holmes mostra como cada um dos detalhes que Watson observou pode ser explicado por meios completamente diferentes. O fato de que Holmes nĂŁo se barbeou nĂŁo significa que ele estava preocupado; significa que ele tinha perdido sua navalha. E assim por diante. O mesmo conjunto de observaçÔes mundanas pode ser girado um nĂșmero infinito de formas, para criar um nĂșmero infinito de deduçÔes. EntĂŁo, qual Ă© o certo?
O ponto principal da histĂłria, gostaria de sugerir, Ă© que as deduçÔes sĂŁo totalmente aleatĂłrias. Conan Doyle tramou contra Holmes, por assim dizer. Qualquer um no lugar de Holmes - qualquer leitor, mesmo alguĂ©m tĂŁo brilhante quanto Holmes - poderia fazer qualquer nĂșmero de inferĂȘncias semelhantes que tenham chances iguais de ser correto. Tudo que Conan Doyle tem que fazer, como Deus deste universo ficcional, Ă© deslizar para Holmes as opçÔes corretas debaixo da mesa.
EntĂŁo, o que podemos aprender com a explicação zombeteira de Doyle de seus prĂłprios mĂ©todos? Como devemos aplicĂĄ-los, como Holmes diria? Eu sugiro que a lição aqui Ă© a abertura: dar ao pĂșblico todas as informaçÔes. NĂŁo esconda nada.
A grande descoberta de Doyle Ă© que a inteligĂȘncia nĂŁo Ă© sobre o acĂșmulo de dados - Ă© sobre decidir o que os dados significam. Holmes tem as mesmas ferramentas Ă sua disposição que vocĂȘ tem; ele quase nunca possui informaçÔes que vocĂȘ nĂŁo possui. A diferença Ă© que ele olha para a informação compartilhada e vĂȘ coisas que vocĂȘ nunca conseguiria. Uma analogia pode ser encontrada no jogo de pĂŽquer Texas Hold 'Em, para qualquer leitor que joga (Eu jogo muito.) O truque do jogo Ă©, em algum sentido, vocĂȘ nĂŁo estĂĄ jogando as cartas do seu oponente - vocĂȘ estĂĄ jogando com o cartas comunitĂĄrias. O jogo real nĂŁo estĂĄ no que ela sabe e vocĂȘ nĂŁo, ou o que vocĂȘ sabe e ela nĂŁo. Ă sobre o que ambos sabem, mas quem implementa o maior efeito.
Doyle nĂŁo retrata a genialidade da forma Diga-Isso-De-Novo-Mas-Em-InglĂȘs. Seu momento de gĂȘnio nĂŁo faz vocĂȘ pensar: "Apenas uns nerds loucos pensariam nisso" Doyle faz o leitor dizer: "Deus, por que eu nĂŁo tinha pensado nisso?"
E isso Ă© uma das coisas que eu achei tĂŁo gratificante em escrever sobre Alan Turing: que tentar transmitir sua inteligĂȘncia na tela foi um ato de democratização. Que abrir sua mente Ășnica na tela foi sobre incluir as pessoas ; nĂŁo se trata de fechĂĄ-los do lado de fora. Essa genialidade Ă© transmitida atravĂ©s da partilha da inteligĂȘncia, nĂŁo da exibição. Estamos todos neste negĂłcio inteligente juntos, de certa forma.
Como muitas histórias, este termina com uma circularidade engraçada.
Meu primeiro livro tinha sido sobre um romancista gĂȘnio: Arthur Conan Doyle. Escrevi, entĂŁo, um filme sobre um gĂȘnio matemĂĄtico: Alan Turing. Ao fazer isso eu usei a genialidade de Conan Doyle para a inspiração. E entĂŁo - depois de cinco anos e um monte de voltas e reviravoltas de Hollywood que poderiam ser objeto de outro artigo ou dois - finalmente conseguimos fazer o nosso filme sobre Turing. E quem era o ator que corajosamente caminhou na frente das cĂąmeras para trazer uma vivĂda e apaixonada vida Ă Turing? Foi Benedict Cumberbatch, um ator que tinha acabado de interpretar Sherlock Holmes.

Um dia estĂĄvamos todos no set. NĂłs estĂĄvamos filmando uma cena relativamente tĂ©cnica, que envolve um negĂłcios com uma mĂĄquina Enigma e um diĂĄlogo rĂĄpido sobre matemĂĄtica. Logo antes de as cĂąmeras começaram a gravar, Benedict me chamou e me disse que achava que eu tinha cometido um erro. Fiquei envergonhado, Ă© claro, e eu perguntei-lhe qual foi o erro. Ele entĂŁo passou a um monĂłlogo longo e altamente tĂ©cnico sobre a matemĂĄtica por trĂĄs das mĂĄquinas Enigma, e como os rotores do aparelho foram conectados. EstĂĄvamos descrevendo um trĂȘs-rotor Enigma, ou um de cinco- rotor Enigma? Quantos cabos plugboard, a marinha alemĂŁ estava usando naquele momento na guerra? O nĂșmero referenciado na linha de diĂĄlogo tem dezoito zeros ou dezenove zeros? Houve um erro em minha multiplicação?
NĂłs dois caminhamos de um lado para o outro, cada um tentando fazer a matemĂĄtica em nossas cabeças. Finalmente, no que ele estava explicando seu raciocĂnio - que, aliĂĄs, acabou por ser correto - eu tive que parĂĄ-lo por um segundo enquanto eu lutava para me segurar. Eu deixei escapar:
"Espere. Ben. Diga isso de novo. "

